“Quem me vê caminhando na rua, de salto alto e delineador, jura que sou tão feminina quanto as outras: ninguém desconfia do meu hermafroditismo cerebral. Adoro massas cinzentas, detesto cor-de-rosa. Penso como um homem, mas sinto como mulher. Não me considero vítima de nada. Sou autoritária, teimosa e um verdadeiro desastre na cozinha. Peça para eu arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida doméstica é para os gatos.”
“Às vezes me sinto uma mulher mascarada, como se desempenhasse um papel em sociedade só para se sentir integrada, fazendo parte do mundo. Outras vezes acho que não é nada disso, hospedo em mim uma natureza contestadora e aonde quer que eu vá ela está comigo, só que sou bem-educada e não compro briga à toa. Enfim, parece tudo muito normal, mas há uma voz interna que anda me dizendo: “Você não perde por esperar, Mercedes.” É como seu tivesse, além de uma consciência oficial, também uma consciência paralela, e ela soubesse que não vou segurar minhas ambigüidades por muito tempo.
Tenho um cérebro masculino, como lhe disse, mas isso não interfere na minha sexualidade, que é bem ortodoxa. Já o coração sempre foi gelatinoso, me deixa com as pernas frouxas diante qualquer um que me convide para um chope. Faz eu dizer tudo ao contrário do que penso: nessas horas não sei aonde vão parar minhas idéias viris. Afino a voz, uso cinta-liga, faço strip-tease. Basta me segurar pela nuca e eu derreto, viro pão com manteiga, sirva-se.
Sou tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora, porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada. Acho que sou promíscua, doutor Lopes. São muitas mulheres numa só, e alguns homens também. Prepare-se para uma terapia de grupo.”
“Há muitas bifurcações no meio deste caminho que deveria ser reto, rumo à sabedoria. Eu vou e volto, vou pra esquerda e pra direita, avanço e retrocedo. Não que isso me incomode, sinto até um certo prazer em me perder neste labirinto. O que dói, talvez, seja essa mania de querer competir com o tempo e vencê-lo.”
“Quando chegamos ao hotel e ele fechou a porta do quarto, a gente soube que o nosso casamento não seria igual aos outros.. Ele não disse enfim sós. Disse enfim juntos.”
“Não importa a idade que temos, há sempre um momento em que é preciso chamar um adulto.”
“Eu me conheço e ao mesmo tempo sei que posso me surpreender a qualquer momento.”
“Não chego a temer a loucura, no fundo a gente sabe que ninguém é muito certo. Eu tenho medo é da lucidez. Tenho medo dessa busca desenfreada pela verdade, pelas respostas. Eu me esgoto tentando morder meu próprio rabo. Quando estou acostumando com uma versão de mim mesma, surge outra, cheia de enigmas, e vou atrás dela. Tem gente que elege uma única versão de si próprio e não olha mais para dentro. Esses é que são os lunáticos. Eu, ao contrário, quase não olho pra fora.”
“Gustavo me ama e sai com outra mulher de vez e quando, e isso é uma coisa que eu jamais terei certeza, pois jamais vou perguntar. Talvez seja uma fantasia minha, talvez não. Talvez eu esteja sendo manipulada pela mídia, que vive nos convencendo de que todos traem. Talvez não seja uma mulher, mas várias outras. Talvez não haja ninguém na vida dele, talvez nem eu.”
“Sim e não, sim e não: essas duas palavrinhas são muito íntimas e fazem uma bagunça considerável na minha cabeça.”
“O breu me assusta, mas prefiro ficar sozinha a compartilhar momentos que não me inspiram nada.”
“Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam odeio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos. Um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia.”
“Não quero investigar nada, não quero concluir nada. Talvez não seja uma atitude esperta de minha parte, mas compreenda, Lopes, é preciso um pouco de segredo e de mistério para fazer as coisas parecerem maiores do que são.”
“Ligeiramente atormentada, mas um tormento controlável e necessário. Esse lado dela é o que mais me atrai e do qual menos informações me chegam. É como se ela fosse sensata e ao mesmo tempo insensata, e no hiato entre uma coisa e outra é que estivesse sua essência.”
"Uma utopia: estou vivenciando a Mercedes que não escolhi ser. Somos todos prisioneiros das nossas escolhas, por mais voluntárias que elas tenham sido.”
“Não tente provocar em mim questionamentos que não trago no momento. Não estou vivendo perigosamente. Troque o perigosamente por intensamente, inconseqüentemente, apaixonadamente. Não há perigo. Perigoso é a gente se aprisionar no que nos ensinaram como certo e nunca mais se libertar, correndo o risco de não saber mais viver sem um manual de instruções.”
“Mas eu não me acostumo com esta transitoriedade, mudanças me parecem atraentes e ao mesmo tempo assustadoras. Meu rosto se transforma, meus pensamentos me deixam perplexa e eu me pego asfaltando uma nova estrada pra mim, totalmente desfalcada de sinalização. Lopes, não encontro mais placas de PARE nos cruzamentos.”
“A pergunta que mais me faço é: por que não? Desde pequena, desde que tomei gosto pelo ato de respirar e me senti atraída pelos dias que estavam por vir, horas repletas de novidade, desde que eu despertei para a leitura e que passei a sentir o sabor das coisas de uma forma muito entusiasmada, desde que eu soube que podia pensar e o pensamento era livre, que dentro do meu pensamento ninguém poderia me achar, desde que meus seios cresceram e eu descobri que pessoas tinham cheiro, desde lá até aqui eu me pergunto: por que não me oferecer para aquilo que não fui preparada? Eu tenho as armas de que necessito para me defender, e mesmo que eu perca, eu ganho, já perdi algumas vezes e sei como funciona a lei das compensações.”
“Pareço estar calma, não pareço? Sou quase oriental nas nossas sessões, pode reparar, nunca levantei a voz ou me descontrolei. Sou latina muito raramente. Mas tudo mudou. Ai, Lopes, ando tão mexicana...
Por dentro, quase histérica. É muita buzina, muito sol, muito batom pra fora do lábio. A vontade que tenho é de entornar vários copos de tequila e de escrever versos de amor vagabundos. Tem sido quase impossível manter-me cool, manter-me japa. Minha vida tem sido acalorada, apimentada, 40 graus à sombra.”
“O que eu sinto? Me dê dez minutos pra pensar. Sei lá o que eu sinto. Fiquei à toa e os acontecimentos entraram pela minha porta e vasculharam a casa, e depois de uma hospedagem gratificante estão partindo, abrindo vaga para outros inquilinos ou para um retiro monástico. No momento em que eu resolvi jogar fora as minhas chaves, fiquei disponível para o bem e o mal. Que entrem e partam da minha vida, desde que não me convidem pra sair do lugar.”
“Um pouco tensa? Estou estupidamente tensa, se eu tropeçar quebrarei os ossos todos, de tão contraída. Tento buscar outro assunto para me distrair mas não consigo parar de olhar para o relógio, atraída por este encontro que foi marcado cedo demais, que não me deu tempo suficiente pra ir mais longe em mim mesma. Temo uma interrupção precoce. Vou ser abortada. Bienvenidos a México... meu país de adoção.”
“Quero o circo todo a que tenho direito: sedução, fantasia, tempo. Quero um romance longo, quero intimidade. Fazer cena de ciúme, terminar, voltar, amar, brigar de novo, telefonar, pedir desculpas, retornar. Amantes bem-comportadas são um tédio."
"Se era amor? Não era. Era outra coisa. Restou uma dor profunda, mas poética. Estou cega, ou quase isso: tenho uma visão embaçada do que aconteceu. É algo que estimula minha autocomiseração. Uma inexistência que machuca, mas ninguém morreu. É um velório sem defunto. Eu era daquele homem, ele era meu, e não era amor, então era o quê?
Dizem que as pessoas se apaixonam pela sensação de estar amando, e não pelo amado. É uma possibilidade. Eu estava feliz, eu estava no compasso dos dias e dos fatos. Eu estava plena e estava convicta. Estava tranqüila e estava sem planos. Estava bem sintonizada. E de um dia para outro estava sozinha, estava antiga, escrava, pequena. Parece o final de um amor, mas não era amor. Era algo recém-nascido em mim, ainda não batizado. E quando acabou, foi como se todas as janelas tivessem se fechado às três da tarde de um dia de sol. Foi como se a praia ficasse vazia. Foi como um programa de televisão que sai do ar e ninguém desliga o aparelho, fica ali o barulho a madrugada inteira, o chiado, a falta de imagem, uma luz incômoda no escuro. Foi como estar isolada num país asiático, onde ninguém fala sua língua, onde ninguém o enxerga. Nunca me senti tão desamparada no meu desconhecimento.
Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responder às minhas próprias perguntas. E tenho que ser serena para aplacar minha própria demência. E tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho que ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto.
Se não era amor, Lopes, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra de corações abandonados. A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não sabe se vai ser antes ou depois de se chocar contra o solo. Eu bati a 200km/hora e estou voltando a pé pra casa, avariada.
Eu sei, não precisa me dizer outra vez. Era uma diversão, uma paixonite, um jogo entre adultos. Talvez seja este o ponto. Talvez eu não seja adulta o suficiente para brincar tão longe do meu pátio, do meu quarto, das minhas bonecas. Onde é que eu estava com a cabeça, Lopes, de acreditar em conto de fadas, de achar que a gente manda no que sente e que bastaria apertar um botão e as luzes apagariam e eu retomaria minha vida satisfatória, sem seqüelas, sem registro de ocorrência? Eu não amei aquele cara, Lopes. Eu tenho certeza que não. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada.
Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, era sacanagem. Não era amor, eram dois travesseiros. Não era amor, eram dois celulares desligados. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo. Não era amor, era melhor."
Martha Medeiros.
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